18/07/2008 23:02

Good bye, Lady

A imagem que guardo, preciosa: nós duas de moletom na manhãzinha fria de Ibiúna, caminhando falantes pelos arredores da casa da família, que tive o privilégio de frequentar e por quem guardo imenso carinho e gratidão (Queridos Fernando, Paulinho, Luciana, Bia: lembram-se do dia das mães ou aniversário dela em que vcs lhe deram de presente uma fantasia de Superwoman? Nada mais justo!).
E lá íamos nós, um beija-flor ali, um sabiá no galho da goiabeira, seus olhos espertos apontando o pedaço da cerca q precisava de remendo, olhe que linda floriu a trepadeira, veja como os hibiscos respondem bem nessa época! Apesar da pouca idade, eu tinha a exata noção do privilégio que era estar ali com Ruth, ouvindo suas exclamações, quase águas de março, enquanto o resto da rapeize dormia. Colhíamos ramos de alecrim, sálvia, hortelã, pensando no menu do almoço, com um sorriso nos lábios. Ela me dava dicas de cozinha, área onde tb reinava soberana; falávamos do meu namorado sociólogo, de fatos tolos, de poesia, e raramente de política. Mas quase tudo é política: eu sabia. Quanto de flexibilidade Ruth me ensinou sem pentelhices didáticas! Caminhando pelo mato, chutando pedrinhas, de vez em qdo carrapichos nas pernas das calças nos faziam parar para arranca-los e comentar que isso era coisa que só meninas do interior - ela de Araraquara, eu de Assis - sabiam fazer sem gritinhos. Um prazer imenso começar/passar com ela o dia. Seu brilho adorável vinha da singular combinação de raras sensibilidade, cultura, fineza, humanidade, inteligência, simplicidade, firmeza, simpatia, flexibilidade....uff! Uma riqueza de pessoa. Lady sem frescura: quem resiste? O Brasil que se curve. Ou que aprenda a se curvar. Ao saber da sua morte, uma agulha gélida varou minha alma, mas não exatamente como toda fatalidade. Por motivos estúpidos não pude ir ao seu velório ou enterro e cá fiquei patinando dois dias numa dor surda. Por isso aqui volto às imagens que guardarei na memória afetiva: os raminhos de sálvia e alecrim nas mãos, a manhãzinha perfumada e fria, a estradinha singela, latidos, pios, a vida bem-vinda, respingos de orvalho, o fogão em fagulhas esperando as suas primeiras ordens. Obrigada, querida Ruth, por me permitir essas memórias adoráveis. E pelo que com dignidade e coragem, no momento que lhe coube, transmitiu a todos nós brasileiros. Não direi "descanse em paz" porque sei que você não é disso e fora desta nossa esfera haverá muito o que fazer. Te deixo aqui um beijo, com o meu carinho e a minha sincera gratidão.

C. Pissarro
enviada por Ledusha






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