10/02/2008 18:50
ao meu antonio soberano
tudo o que escrevi, que pensei, que utilizei (ou tentei utilizar) como modelo, tudo que amei e amo, tem alguma ligação com nosso Brasileiro Soberano. Parabéns, Tonzinho, nos seus 81. Deixo aqui todo o meu carinho, meu respeito, e minha saudade.
Visita
à minha querida Helena Jobim
Na tarde que cai lavada depois da tempestade, respira uma melodia tão macia que despenteia a alma, livre do coágulo urbano, da rigidez de um dia longo de trabalho e telefonemas estéreis. É dezembro e paira sobre a cidade um céu de singular textura.
Um pássaro desliza seu vôo exato, fio de lâmina reverenciando a linha de uma pipa intrépida. O ar fresco da varanda exala um sentimento íntimo e entre pensamentos preguiçosos acendo o primeiro cigarro. Aqui, longe das lábias, não quero idéias enfadonhas. O cheiro da chuva estonteia, quase táctil.
Minha filha passa pela sala assobiando: é o tempo natural desenhando seus mapas, a vida tinindo em sua forma e conteúdo. Faísca um carro no espelho do asfalto molhado. Colho a cintilância única desse instante vivo, ardendo na noite que desperta. Há algo mais no ar que me comove e conforta. Fecho os olhos. Uma límpida melodia se expande por todo o espaço e a recebo como uma graça, uma exímia carícia. Ouço cada mínima nota repleta do mais puro sentimento e posso perceber que nos seus movimentos há mato, vento, luz e mar. Estou plena, trêmula de encantamento. Minha alma agora vaza os céus desse dezembro que se esvai na tarde de chuvas fartas.
No fundo do infinito, com o coração aos pulos, posso distinguir seu vulto que aos poucos vai se definindo, brando e claro: atento ao pulsar intermitente do mundo, no alto de uma dessas matas que amou de verdade, sua imagem querida saúda os pássaros com o vento nos cabelos lisos, a fronte alta, os olhos sorrindo espelhando outros mares, sereno na sua integridade, junto a um enorme jequitibá. A paz do seu coração ressoa no meu coração. Tudo é testamento, posso ouvir sua voz, alumbrada.
O telefone toca. A fala amiga vem mansa, do Rio. A noite agora é densa, a terra imensa, e a vida, um breve arrepio. Salve.
Ledusha S.

enviada por Ledusha
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